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Engenheira Florestal identifica espécies de Mata Atlântica para arborização urbana

Isabelle Meunier – Coordenadora do CERBMA-PE

Todos os estudiosos e apaixonados da Mata Atlântica sabem da sua riqueza em espécies e da beleza de suas árvores. No entanto, pouco dessa beleza é compartilhada com a sociedade em geral, principalmente no meio urbano, onde a falta de áreas verdes, os poucos cuidados com as árvores e a falta de criatividade na seleção de espécies faz-nos conviver com um conjunto arbóreo pobre, pouco diversificado, doente e mutilado, incapaz de gerar os benefícios esperados.

Por outro lado, inúmeras pesquisas tem evidenciado a importância da arborização para o meio urbano, trazendo benefícios ambientais, socioeconômicos e para a saúde física e mental dos seus habitantes. Ainda mais em cidades tropicais como as nossas, a sombra das árvores é fundamental para o conforto dos habitantes, sem falar no poder das árvores “condicionar” o ambiente, controlar a poluição sonora, filtrar o ar, absorver gás carbônico e economizar energia da refrigeração artificial.

O uso das espécies nativas em praças, parques e ruas não é só uma opção estética, governada pela grande beleza que elas apresentam. É uma opção técnica, pois são espécies que trazem muitos milhares de anos de evolução, adaptando-se às condições do ambiente e tornando-se mais resistentes às doenças e pragas. Além disso, pode permitir que as pessoas conheçam um pouco da diversidade que, infelizmente, vem se perdendo pela ação irrefletida e criminosa dos desmatamentos. Espécies nativas fornecem alimento à fauna urbana e podem oferecer, com contrastes da sua enorme variedade de folhas, flores e frutos, uma paisagem urbana muito mais bela e representativa da nossa flora local. No entanto, pouca atenção é dada pelos órgãos responsáveis a essas espécies. Arborização, em quase todo Brasil, é pura cópia e repetição: espécies exóticas usadas no Rio Grande do Sul são copiadas em Teresina, independente do ambiente e da cultura local. O exemplo mais dramático dessa falta de criatividade (e de previsão de futuro...) é o uso do Ficus exótica invasora absolutamente desaconselhável para calçadas.

No entanto, de vez em quando se percebe “vida inteligente” na arborização urbana. Recentemente, a engenheira florestal Maria de Fátima Carvalho, funcionária da EMLURB, defendeu sua dissertação identificando espécies da Mata Atlântica com potencial para uso nas diversas categorias de arborização urbana. Seu mestrado foi desenvolvido no Departamento de Ciência Florestal da Universidade Federal Rural de Pernambuco, com a orientação do professor. Luiz Carlos Marangon.

Maria de Fátima, pesquisando em três fragmentos de Mata Atlântica da Região Metropolitana de Recife, escolheu dez espécies de árvores e fez sua descrição dendrológica. Com esses elementos, indicou-as para praças, jardins ou calçadas, selecionando aquelas que poderiam ser usadas em calçadas mais ou menos largas e até sob fiação. No último dia 26 de setembro, Fátima fez uma apresentação do trabalho na reunião do CERBMA, mostrando a todos a relevância do seu trabalho e as oportunidades para inúmeras pesquisas complementares.

As espécies estudadas pela engenheira florestal foram cupiúba (Tapirira guianensis), embira vermelha (Xyplopia frutescens), amescla (Protium hetaphyllum), trapiá (Crataeva tapia), pau-ferro da mata (Dialium guianense), angelim (Andira nitida), goiti-trubá (Pouteria grandiflora), açoita-cavalo (Luehea acrophylla), murici (Byrsonima sericea), foquetião (Allophyllus edulis), cabo-de-quenga (Myrcia obtecta), jenipapo-bravo (Tocoyena brasiliensis) e a Melastamataceae Miconia prasina. A maioria dessas árvores tem porte alto ou médio e poderiam ser usadas em parques e praças. Outras, como o jenipapo-bravo e a Myrcia podem ser experimentadas em calçadas mais estreitas, pois têm porte baixo. Por outro lado, amescla e goiti são perfumadas e seriam indicadas para margens de canais ou no entorno de aterros sanitários.

Essas espécies são encontradas na Mata Atlântica pernambucana, principalmente em bordas ou clareiras, o que permite supor que se adaptariam no ambiente urbano. Mas é importante observar que a pesquisadora aponta apenas para “usos potenciais”: o sucesso efetivo dessas e de muitas outras espécies em programas de arborização depende de pesquisas constantes, avaliando desde o poder de germinação das sementes até o crescimento das mudas em viveiros e sua adaptação em situação de rua.

Viveiros municipais, desde que levem a sério seu papel e seus encarregados compreendam a importância da arborização e da conservação das árvores nativas, podem facilmente fazer essas pesquisas, com um pouco de método e muito de curiosidade e interesse.

O trabalho de Maria de Fátima nos aponta para possibilidades que precisam ser exploradas. Ter espécies da Mata Atlântica nas ruas e praças das nossas cidades é mais do que uma decisão técnica correta: é uma opção ética, pois valoriza o nosso passado, a nossa identidade cultural e o nosso ambiente.

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